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Carvalhão Duarte
O fundo Carvalhão Duarte, depositado na Fundação Mário Soares por Sérgio Carvalhão Duarte, reúne diversa documentação de seu pai, Jaime Carvalhão Duarte, bem como dois significativos e importantes conjuntos documentais: um de Francisco José da Rocha Martins, que lhe foi legado por força de testamento; e outro incluindo numerosos documentos que foram entregues em vida a Carvalhão Duarte por José António Simões Raposo.
A conjugação destas três proveniências imprime ao fundo Carvalhão Duarte uma grande riqueza documental, que abrange diversos períodos históricos, desde os finais da Monarquia, passando por toda a I República, e percorrendo a Ditadura Militar e quase todo o período do Estado Novo.
Assim, e no que se refere à documentação reunida por Jaime Carvalhão Duarte, esta tem um âmbito cronológico que, maioritariamente, corresponde às décadas de 1940 a 1960, referente às actividades da oposição democrática, entre as quais se contam documentos do MUD, das diversas campanhas eleitorais para a Presidência da República e para a Assembleia Nacional, do movimento estudantil, manifestos e panfletos de várias organizações da oposição (legal, semi-legal e clandestina), bem como uma significativa diversidade de títulos de imprensa.
Dada a actividade jornalística de Jaime Carvalhão Duarte desenvolvida à frente do jornal “República”, partir do início da década de 1940, também se destaca neste acervo um conjunto significativo de cortes de censura deste jornal e correspondência dos Serviços de Censura, aplicando multas e punições relativamente a alguns noticiários.
No que se refere à documentação entregue por Simões Raposo a Carvalhão Duarte, esta tem especial relevância para a história do movimento republicano em Portugal, bem como para a história da Maçonaria e do papel por esta desempenhado nas vésperas da implantação da I República e nos anos subsequentes.
Cumpre destacar várias centenas de documentos relacionados com a actividade do Grande Oriente Lusitano Unido, desde 1897 até à ilegalização da Maçonaria, em 1935. Neles se inclui diversa correspondência de lojas maçónicas, boletins do GOLU, e documentos relacionados com o exercício de cargos maçónicos por Simões Raposo.
De especial relevância, é o conjunto reunido por Simões Raposo relativo à designada “Comissão de Resistência da Maçonaria”, que contém documentação essencial sobre os preparativos da revolução do 5 de Outubro de 1910.
Salienta-se ainda uma significativa colecção de recortes de imprensa reunidos por Simões Raposo sobre a implantação da República, bem como diversa correspondência trocada com Magalhães Lima, de quem foi amigo íntimo, e uma outra colecção de recortes de jornais organizada por ocasião do falecimento deste último.
Quanto aos documentos legados a Carvalhão Duarte por Rocha Martins, estes têm igualmente importância relevante, nomeadamente no que respeita à actividade dos sectores políticos afectos à causa monárquica durante o período da I República, mas também quanto aos movimentos de oposição que, posteriormente, se fizeram sentir contra a Ditadura Militar e o Estado Novo.
Provenientes deste legado, encontram-se, deste modo, numerosa documentação relativa aos movimentos monárquicos durante a República, como sejam as incursões de Chaves em 1912, lideradas por Paiva Couceiro, manifestos, panfletos e propaganda diversa relacionada com a designada “Monarquia do Norte” e com revolta de Monsanto, em 1919, abrangendo tanto documentos produzidos pelos sectores monárquicos, bem como por forças afectas à República.
Saliente-se, ainda, um conjunto significativo de documentos reunidos por Alfredo de Albuquerque relacionados com a actividade desenvolvida pelos monárquicos durante o período da I República, em Portugal e no estrangeiro, e as tentativas para o restabelecimento da monarquia e preparação de movimentos revolucionários. Neste conjunto reunido por Alfredo de Alburquerque, inclui-se também correspondência diversa com Sinel de Cordes, trocada antes e depois do movimento que instaurou a Ditadura Militar.
Oriundos igualmente do espólio de Rocha Martins, contam-se documentos do final da Monarquia, como seja um conjunto de autos de processo correccional contra indivíduos acusados de fazerem parte de associação secreta, datados de 1910, pouco antes da implantação da República e um álbum fotográfico relativo à campanha do Cuamato em 1907.
Rocha Martins reuniu igualmente um conjunto de notas, cartas, cadernos, memórias e documentos diversos do coronel Gonçalo Pereira Pimenta de Castro, que ilustram o seu percurso militar e político durante a República e primeiros anos da Ditadura Militar, bem como documentação relacionada com o brigadeiro João Tamagni Barbosa, em especial um conjunto de ofícios e documentos diversos do período em que esteve à frente do Comando Militar dos Açores(1943-1944).
No espólio de Rocha Martins encontram-se ainda correspondência trocada com diversas personalidades, entre as quais se podem salientar, a título de exemplo, João Franco, Paiva Couceiro e Sinel de Cordes, entre outros.
Por outro lado, e para além de manuscritos e apontamentos do próprio Rocha Martins, este reuniu ainda diversa documentação de relevo para o estudo das revoltas contra a Ditadura Militar, incluindo as revoltas de 1927, e as ocorridas nas ilhas adjacentes em 1931, e alguns documentos relacionados com a oposição democrática, nomeadamente diversa propaganda relativa à candidatura de Quintão Meireles à Presidência da República.
O fundo Carvalhão Duarte é também bastante rico no que respeita a espécies fotográficas, provenientes dos três espólios que o compõem. Nele se encontram, entre outras, numerosas fotografias ilustrativas dos acontecimentos do 5 de Outubro de 1910, de diversos políticos da I República, ou um álbum fotográfico relativo à Campanha do Cuamato de 1907 (reunido por José de Almeida “Pesca-Rãs” e legado por Rocha Martins), entre outras fotografias avulsas pertencentes a Carvalhão Duarte.

Instituição
Fundação Mário Soares

Nota biográfica/Institucional
Jaime Carvalhão Duarte (1897-1972)
Nasceu em Timalhas, Castelo Branco, em 9 de Junho de 1897, e ali frequentou a instrução primária. Ingressou mais tarde na Escola Normal de Castelo Branco, onde concluiu o curso de professor, em Agosto de 1915.
Nos primeiros tempos como professor primário passou por numerosas mudanças de escola. Apenas em Fevereiro de 1919 é colocado em Vila Moreira, concelho de Alcanena, onde permanecerá até 1927.
Em Agosto de 1927 é nomeado professor da escola primária privativa do Instituto do Professorado Primário em Lisboa, onde ficará até 1931. De Junho de 1928 a Maio de 1935 exerce também o lugar de professor de ginástica pedagógica Refúgio da Tutoria Central da Infância, sendo afastado por motivos políticos. As suas posições educativas integravam-se na corrente derivada do anarquismo. No combate ao ensino rotineiro tradicional, inspira-se nas teorias da escola nova e do ensino activo, atribuindo à escola uma função educacional mais ampla, incorporando os novos meios de cultura como o cinema e rádio.
Carvalhão Duarte destacou-se também pela sua actividade sindical na União do Professorado Primário, onde desempenhou diversos cargos de direcção até esta ser ilegalizada em 1930.
Neste último ano, entrou para o jornal República, pelas mãos de Ribeiro de Carvalho. Em 1941 tomou a direcção do jornal, que se irá tornar-se o elemento catalisador da actividade da oposição democrática, acompanhando de perto as actividades do MUD, e as campanhas dos vários candidatos oposicionistas às eleições presidenciais.
Faleceu em 21 de Agosto de 1972.
Francisco José Rocha Martins (1879-1952)
Nasceu em Belém em 30 de Março de 1879, sendo filho de José Dias Martins e Mariana do Carmo Rocha Martins.
Frequentou o Instituto Industrial e o antigo Curso Superior de Letras, que não chegou a concluir.
Aos 15 anos, devido a dificuldades económicas dos pais, obtém colocação no escritório da Companhia União Industrial, dirigido por Mariano Prezado. Ingressou depois na redacção do Diário Popular, aí iniciando longa carreira de jornalista.
Publicou vários contos no Diário Popular, com o pseudónimo “Fratins”. Aos 18 anos é levado por Magalhães Lima, como folhetinista, para o jornal A Vanguarda, onde publica vários romances históricos, que lhe conferem grande celebridade. Transita entretanto para o Jornal da Noite, órgão do Partido Regenerador Liberal.
Assumiu a direcção da revista Ilustração Portuguesa, em 1903, que abandona quando Carlos Malheiro Dias se exila no Brasil, em 1911. Passa então a dirigir o Jornal da Noite e colabora no Liberal. Em 1920, com M. Anahory, funda o semanário ilustrado ABC.
Envolvendo-se nas questões políticas, manteve estreitas relações com Magalhães Lima, Cândido dos Reis, Tomás Cabreira, Artur Leitão, António José de Almeida, Machado dos Santos e outros republicanos.
Contudo, o atentado à família real em 1908 aproximou-o definitivamente da causa monárquica. Durante a I República foi também deputado em 1918 e vereador da Câmara de Lisboa em 1924. Posteriormente, veio a participar no MUD, em 1945.
Faleceu em Sintra a 23 de Maio de 1952.
José António Simões Raposo (1874-1948)
Professor da Casa Pia, nasceu em Lisboa a 22 de Julho de 1874. Frequentou o liceu em Ponta Delgada, durante o período em que seu pai aí exerceu funções oficiais. De regresso a Lisboa, participou activamente na propaganda republicana, tendo tido papel essencial na preparação da implantação da República em 5 de Outubro de 1910, nomeadamente pela sua ligação à Maçonaria.
Foi secretário particular de António José de Almeida, no período em que este foi Ministro do Interior do Governo Provisório, e depois filiou-se no Partido Evolucionista.
Deputado às Constituintes em 1911 e na primeira legislatura republicana, pelo círculo de São Tomé e Príncipe, deu especial atenção às questões da instrução e da pedagogia.
Integrou a direcção de vários Centros Republicanos, instituições de beneficência e de educação popular e foi inspector da escola Voz do Operário.
Faleceu em Lisboa, a 8 de Julho de 1948.

Dimensão
Este fundo é composto por 49 pastas de arquivo, o que perfaz, aproximadamente 4.41 metros lineares.

Estado de Tratamento
Parcialmente tratado.